13 de fevereiro de 2009

Um duelo digno *

Depois de longas batalhas: farpas; cortes; sangue; suor perdido e desperdiçado, resolvi me entregar.
Deixei meu escudo cair.
Ferido e cansado senti que era inútil ficar lutando e tentando matar um dragão que, se em um dia morresse, perderia seu valor e meus méritos.

Ardendo debaixo do sol e procurando a melhor estratégia possível, achei que não merecia ser apunhalado.
Somente eu o conhecia e, somente eu o via e sabia seus costumes. Eu tinha aprendido a lidar com ele. Tinha descoberto seus horários, morada e hábitos.
Debaixo de temperaturas insuportáveis, o frio da neve e o calor do fogo
do dragão e do sol, me fizeram pensar melhor e refletir se aquele meu dragão realmente mereceria morrer.

Ninguém acreditava e ninguém acreditaria.
Não suportando e nem aguentando mais, decidi jogar a lança num lago;
Abaixei a cabeça e soube perder...
Abaixei a cabeça e soube perdoar...

Quando alguns souberam da minha proeza, não fiz muita questão, mas a verdade prevaleceu: Ele nunca me venceu, eu apenas me entreguei e o deixei ganhar.
Acabava sempre o assunto com um “Um dia poderei voltar...”
Quando você olha para o céu infinito com milhões de gotas escorrendo sob você (a chuva, a neve, o suor e as lágrimas...) a vontade de vencer supera a dor.
Começa-se a refletir e pensar se mesmo superior e mais sábio, sairia de lá vivo, se valeria a pena sofrer tanto por algo que ninguém valorizaria.
Situações improváveis e impossíveis me faziam pensar em desistir, mas sabia que quando as coisas se complicam, tudo fica difícil e quase sem solução...
Mas mesmo que pareça não existir, de todas elas, a menos dolorosa, é a melhor!Sempre há solução:
“para todo problema existe uma solução”.


Tudo tinha que ficar bem.


Hoje me pego em devaneios e as vezes, até penso nele.

Foi um inimigo que acabou ficando meu amigo...
Ele aprendeu a me respeitar, embora nunca tenha duelado diretamente ou me ameaçado.
Acho que no fundo até sabia o sentia.
Agora estou numa nova aldeia, conhecendo guerreiros diferentes, habitantes diferentes, inimigos diferentes.
Vivo respirando um ar mais claro, puro e verdadeiro e claro - com temperaturas mais fáceis de suportar.
Eu sei que um dia esse ar se tornará poluído, venenoso e insuportável.
Mas estou contente por ter mais colegas e mais inimigos.
Posso perder, vencer e me valorizar.
Dar e receber respeito, poupar mais vidas.

Meus verdadeiros esforços estão guardados para novas batalhas e novas guerras. E sim, foi por isso me entreguei.

* Julho de 1997.

Fazendo parte da história


Vi quando Tancredo morreu e as pombinhas voavam a tarde toda ao som "Coração de estudante".
Lembro quando Bush atacou o Iraque na mesma época do Rock In Rio, e o plantão da Globo vinha com um barrilzinho interromper a programação identificando "Guerra no Golfo".
Tentei decorar todos os nomes dos países que resultaram da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Quando o muro caiu, não entendia por que "Another Brick in the Wall" foi cantada repetidas vezes num mesmo show, até por Cindy Lauper!
Vi quando a escola parou para hastear a bandeira a meio pau quando Senna morreu.
Agora já na CNN live acompanhei a primeira retalhação do (novo) Bush mais uma vez contra o Iraque.
Minha cidade estava em luto após o assassinado o prefeito e, conversando pelo telefone com a televisão em mute vi, também em tempo real, os aviões se chocarem ao World Trade Center.
No youtube pude confirmar Saddan morrendo.

Incrível! todos os grandes marcos que presenciei são resultantes de mortes e guerras.
Pena eu não ter presenciado Neil na Lua.
Por quê durante minha história nunca ninguém entra como marco histórico ainda vivo ou feliz?

Faz valer: no amor ou na dor.

Aí entra o diferencial humano.
Cada um faz e pensa o que quer.
Eu só penso nas conquistas, emoções e alegrias.
Progresso, vitória e superação.
Presencio milagres e observo a árvore (genealógica) me dando frutos.
Os apodrecidos caem na terra como ditadores.

E eu?
Faço parte da história daqueles que sorriram, sorriem e sorrirão comigo.
E pra mim, isso basta.

Amigos.
Conquiste-os ou morram tentando.

12 de fevereiro de 2009

Gerações

Tinha um tempo que eu imaginava ser imortal.
Houve uma época que eu acreditava que um dia voaria.
Aconteceu momentos em que eu dizia conversar constantemente com Deus.

É Pai, eu cresci.

Hoje me lembro.
Já pedi para quando "se eu morrer, me levar sem doer".
Hoje entendo um tiquinho mais.

Não foi surpresa quando meu primeiro fio de barba apareceu.
Não fui o primeiro da classe a ter.

O tempo continuou voando.

Não foi admissível quando comecei a perder minha família.
Não fui o primeiro a perder e sentir.

Hoje em meios tantos fios brancos de cabelo, vejo e aceito o tempo em minha vida.
Aprendi a não questionar.
Aceito o que é meu destino.

Hoje, eu vejo com mais clareza.
Já tenho pêlos e fios de barba branca.

Existe apenas um porém entre o inadmissível e o aceitável.
O intervalo. O meio do caminho. O fim do ato I.

A hora em que não são mais só nossos animaiszinhos que nos deixam.
Um peixinho. Um canário. Um coelho. Nossos Cães.
Duro entender e consentir que estamos numa fase nova.
Não são mais nossos tios que se formam.
Não são mais nossos avós que morrem.
Não são mais nossas tias que têm filhos.

Uma nova geração.
Gera ação.

Presenciamos esse estágio quando tudo muda, e o gélido espanto e a amarga sensação do medo começa a sondar nosso umbigo.

Já comecei a perder esses laços.
Mas eu ainda tenho você.
Obrigado meu Pai, por sempre acreditar e nunca deixar eu me abalar.