28 de abril de 2009

Momento cultural

Antigamente, todas duvidas de palavras desconhecidas eram sanadas com um grito em comum. "Veja no pai de todos".
Sim, o Aurélião. Aquele calhamaço com mais de 2 mil páginas, uma bíblia portuguesa em folhas mais finas que papel higiênico.
Hoje, com tudo cyber, em um clique, o novo pai (ou seria neto de todos?) é o google.
Mas... o que você sabe sobre o Aurélio? além de ser um dos poucos nomes próprios a posssuir TODAS vogais, descobri algo a mais.
Alagoano, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira era (morreu em 89) primo do Chico Buarque (cantor), pertenceu a Academia Brasileira de Letras em 61, e como fato curioso, destaco que, com apenas 14 anos (1923), começou a dar aulas particulares de português.
Vivendo e aprendendo.

27 de abril de 2009

Lero Lero

Fazendo hora, fiquei sapeando na net.
Pulando de blog em blog.
Conhecendo enderecos estranhos, blogs diferentes, diagramacoes interessantes, pessoas esquisitas, situacoes inusitadas, textos criativos e frases curtas.
textos curtos.
ideias rapidas.
Oras, porque meus textos sao tao longos?

21 de abril de 2009

Raios

Beto estava morrendo de fome.
Também pudera, uma baita chuva dessas, não sobrava muitas opções além da periódica visita à geladeira.
Escolheu queijo. Pegou 2 fatias de pão de forma com centeio e com um equilibrio pouco usual abraçou a torradeira.
Após apoiar o eletrodoméstico na pia, relaxou os braços soltando os produtos no mármore, agora bastava ligar a tomada.
Foi quando sua vida começou a mudar.


No exato minuto em que colocou a tomada no buraco da parede, lembrou que o fio estava desencapado.
E como ninguém tinha mais azar que ele no mundo, escutou-se um trovão e aquele raio que você só enxerga nos vídeos da Discovery Channel, atingiu a rede elétrica da sua casa.

Beto foi atingido por uma descarga elétrica de milhares de volts.
Ficou trêmulo, babava. Seus olhos viravam e numa espécie de convulção ficou encolhido no chão por alguns minutos.

Achando já estar morto, abriu os olhos e quis conhecer o paraíso.
Assim que apoiou a palma da mão no chão para se levantar, não reparou, mas ele acabara de abrir dois rombos no chão.

Quando ficou ereto buscou equilíbrio.
Sentiu o cheiro de queimado quando sua mão segurou o batente da porta de madeira.
Ao retirar a mão, via-se claramente o molde da mesma em cor acentuada.
Percebeu que seu corpo estava diferente.

Possuía a maldição de acelerar partículas.
Derretia, fervia coisas ao menor contato de suas palmas.


Uma descarga de adrenalina percorreu eu sistema sanguíneo.

Parecia estar curado do choque levado.
O mesmo que o projetou longe de onde estava.

Comecou entender que sua vida não era mais a mesma.
Com somente o indicador levantado, encostou na parede e logo o viu, através do contato, sair uma pequena fumaça.
Apertou-o mais e ele começou atravessar a matéria.

Riu. Ele era um super herói. Um X-men.
Um monstro capaz de conquistar o que quisesse.

Pensou em riquezas, mulheres, fama e status.
Imaginou dando entrevistas e exibindo seu poderio ímpar.
Ao mesmo tempo, idéias como "devo usar máscara" para permanecer anônimo com seu poder passou por sua mente.

Quis avisar seu melhor amigo e, quando segurou o gancho do telefone, como um pegador de saladas, fez os dois bocais se encontrarem, devido a base central estar sendo derretida.

Largou e, tentando contextualizar a imagem do gancho derretido com sua palma da mão intacta, não chegava a uma conclusão sensata.

Correu até o quarto e, ao pegar o celular, tentou, de maneira rápida, digitar o número de seu pai.
Como era o esperado, no terceiro dígido ele já havia produzido três furos no aparelho.
Ficou em pânico, desesperado. Precisava de ajuda.
Sem perder qualquer segundo, saiu correndo.

Derretendo a maçaneta da porta de entrada, girou e ganhou o gélido vento que espirrava pingos d´agua da chuva, ainda forte e barulhenta.
Protegeu seus olhos com o ante-braço enquanto caminhava até o portão.
Ao tocar o portão, liberou uma energia incrível.
Somado ao poder da cerca elétrica, a máquina próxima as engrenagens do portão eletrônico devolveu, numa espécie de curto-circuito, a dor que ele estava causando ao mundo.
Não podia brincar de ser Deus.
Caiu de costas no gramado e, olhando o céu negro despejando toda fúria da tormenta tempestade, deu seu último suspiro.
Foi assim. Veio e foi como um raio.

Sonata para um homem bom

Ela estava ali.
Bem pertinho.
Acompanhava todos seus movimentos.
Eu a vigiava e timidamente esperava chegar mais perto, para, quem sabe, poder oferecer um sorriso em troca de sua beleza.

Ela parecia impaciente.
Ameaçava ir embora.
Sob a pressão de perdê-la (para sempre),
comecei a ficar preocupado.

O Tempo estava correndo

Direcionei minha face ao chão e,
com os olhos fechados, por alguns segundos fiz uma prece.
Pedi que acontecesse algo.

Foi então que olhei para o céu.
Ela não estava mais lá.

Nunca a flor *

Sem muito a entender , mas com muito a conhecer
Ainda é muito cedo para saber ( sempre será )
Nunca conhecerei o saber , pois nunca saberei conhecer .
Talvez , uma dia - tarde demais - descobrirei que esse
- que já se foi - já sabia o que acontecia .
O que acontecia num mesmo lugar ,
mas nem sempre com as mesmas coisas .

Existindo uma razão , estarei de prontidão ( a preocupação )
Uma vez , quem sabe quando , possa correr ( contra a maré do tempo )
A imensidão da questão - a dívida - ,
era a dúvida dividida entre o tempo e a separação .

Tempo em que acreditar em verdades mentirosas era ( e sempre será )
melhor do que acreditar em mentiras verdadeiras .
Um tempo , uma vida , e , mais uma história .

Sustentado pela vida , testado pela morte e ignorado pelo tempo ,
percorria -ferido- um caminho ,
que seus pés ( e nem sua alma ) conhecia .

Não conhecia ninguém ,
não tinha nada a não ser sua esperança ,

e torcia para ninguém

You could be blind
You could be fine
You could be...
- only in my mind - mine .

* - Janeiro de 1997.

19 de abril de 2009

Blogagem coletiva - Quem foi seu Monteiro Lobato?

Recapitulando:
"O desafio trata-se de um convite oferecido ao blog Fio de Ariadne Jorge Zahar Editor, para uma blogagem coletiva no dia 18 de abril, dia em que se comemora o Dia Nacional do Livro. (C
riado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 2002 em homenagem a Monteiro Lobato, figura marcante da literatura brasileira, atuante como escritor, crítico e editor).
Com essa proposta, ao mesmo tempo, será possível lembrar a data, falar de Lobato e discutir um tema importante: Como são feitos os leitores? Como eles nascem e como são moldados? Com esta coletiva Ariadne busca a resposta para a seguinte pergunta: Quem foi seu Monteiro Lobato? Houve alguém na sua vida que tenha sido incentivador de seu amor pela leitura? Qual foi o pontapé inicial da sua jornada por este mundo apaixonante que é a literatura?"

Seguindo a corrente, extraida do blog da Gisa, vamos lá.


Meu monetiro Lobato foi ...
Monteiro Lobato!
Putz, que grande mentira. Minha mãe comprou diversos livros dele (aquela coleçãozinha amarela) e eu nao li nenhum.
Lia diversos livros e parava pela metade então livros INTEIROS, o que li vários em sequência.. deixa eu ver.

Meu primeiro Livro? Chama-se "O Tapa". Era sobre uma briga de irmãos. Livrinho fino, inafantil, umas 20 páginas para escola. Comprei na Livraria Romano ao lado do colégio. Li no carro mesmo. Foi divertido porque ninguém acreditou. "Duvido que você já o leu".
Isso de certa forma agradava meus pais. Meu pai em especial, jornalista, lia quase um livro por semana, e isso de certa forma, o orgulhou.
Na escola, sexta série, tínhamos o clube do livro. Era a disputa para ver quem conseguia ler "O Mistério do Cinco Estrelas", "As minas do rei Salomao", entre outros.
Enfim, meus primeiros livros não tiveram um autor em comum. Quis ler muitos Sir Arthur Arthur Doyle, mas nunca os acabava...

então vamos para os que eu li diversas obras e inteiros.
Meu monteiro lobato é!...
The winner is:
Paulo Coelho.
Engraçado. Li na época uns 8 seguidos. Gostei do tom "sobrenatural". "por quê tantos compram seus livros?". Ele já emplacava três ou quatro na lista dos top10. "Porquê?". Eu tinha uma coisa em mente. Descobrir se ele era charlatão ou não. - Resposta que até hoje não conheço. Mas seus livros me trazia algo mais.
No fundo eu não ligava se era mau escrito ou revisado como dizia a crítica.. eu queria mais. Eu queria saber aonde entraria uma falha de continuidade. Uma brecha onde eu pudesse dizer "Ahammm eu sabia! eh verdade/eh mentira!!". Queria entrar na magia, descobrir o sobrenatural da vida e do universo. O segredo para ser feliz.
E foi nessa época que comecei a comprar livros. Digo mais. Nessa época descobri amar livros.
No dia que comprei "O Monte Cinco', diante de suas quase 600 paginas descobri algo que até hoje me fascina: "600 PAGINAS!" Que orgulho. Vou adorar devorar cada uma delas.
QUANTO MAIS EXTENSO, MELHOR! Mais vai demorar eu chegar no final. Mais vou me deliciar.
E assim que li todos seus livros, esgotei sua bibliografia, me vi perdido. Orfão.
O que fiz? Criei coragem de encarar meus medos.
Sim, o mestre do terror. Aquele que fale de ETs! (meu grande medo!)

Stephen King.
Acho que King me trouxe à realidade da literatura.
Logo após A Maldição do Cigano e Carrie (!) - meus primeiros, comecei a partir a livros... gigantes, mostruosos, e claro, sobre ETs.
Foi quando comprei "O Apanhador de Sonhos". Umas 800 páginas. Lembro que gastei uma grana alta pra época. Enquanto muitos gastavam em bobagens (ao meu ver), eu gastava em livros. (E quando acabou, tive que conhecer Sebos!).
E o medo do livro ter 800 páginas falando de ET? risos
Quebrei essa barreira.
Mas King - O Rei - Me deu a máxima lição: Inventar; Criar.
O seu poderio criativo era intenso. E isso me deixava muito intrigado. Como uma pessoa podia me deixar tão sem-graça com cara de "hãm", pois cada livro que eu lia, eu tinha que reconhecer. "Que idéia massa!".
E assim foi, dezenas de livros seguidos.

Depois minha meta era "zerar" autores. Saga de Zé Lins do Rego, pulei para o primo-irmão de King, Robin Cook, mas quanto mais eu lia mais eu descobria que o leque de titulos e autores aumentava... Eu já estava seguindo diversos autores e comecou a ficar difícil ler tudo de todos. Nessa fase descobri meu minha grande obra. "A Caverna / Saramago". Esse cara me deixou atônito. Era um Vidas Secas contemporâneo. Era uma contrução literária, gramatcial impecável. Eu o invejei ali. (E depois então, vich!).
Depois veio a fase Harry Potter e Senhor dos Anéis. Até que encontrei um autor nacional que me chamou atenção. Andre Vianco? Não.
Ivan Sant´Anna. Seus livros sobre desastres aéreos me deixou com fome de leitura. A temática que aboradava aprendizado e uma longa abordagem sobre provas, relatos e uma rica gama de investigação me fez maravilhar com investigações. Plano de Ataque, Caixa Preta, Rapinna, Mercadores da Noite foi só o começo.
Dai veio Caco Barcellos com o jornalismo de humilhar qualquer livro reportagem da história já escrito.
Hoje perambulo com contos e crônicas. Muita leitura estrangeira, mas claro, enfatizando o critério: Quanto mas criativo, melhor.

E acho que é isso que me motiva escrever hoje.
Tentar escrever algo que nas primeiras linhas, a pessoa leia e envergando a sombrancelha faça a cara de "hãm".
"Um cara vivendo com uma escada nas costas? que ideia absurda!"; "Esse cara viu Elvis?"; "Um rato?"... Esse é meu preço.
Esse é meu pagamento.
Um sorriso no mínimo.
Mas o preço é criar algo até a pessoa pensar "que idéia estranha, daonde ele tirou isso".
E daí vem, mesmo sem eu ver ou saber... Entender que essa pessoa imaginou a cena. Mesmo esdrúxula, incomum, estranha, impossível ou praticamente inimaginável.
Ela visualizou a cena.

E eu alcancei meu objetivo.
(Exterminar o exército azul e mais 4 continentes a sua escolha).

13 de abril de 2009

O rato

Febrão de quase 40 graus, ânsias, tremores e calafrios.
O que fazer? Pronto Socorro.
Fila de espera. E pelo visto, muita espera.
Na Tv, passava o antigo Johnny Quest. “Puxa a D ia gostar de estar aqui vendo”.
Mas que canal é esse que em casa não passa mais esses desenhos da velha guarda?
Ah, pouco importa. Eu vou tomar umas 3 injeções e uma bolsa com uns 10 litros de soro mesmo. Isso sim importava.
Começou chuviscos na tela.
- Pois é, mais essa. O dia vai ser longo. – disse para um rapaz, aparentando ter uns 20 anos ao meu lado.
Ele quis me responder algo, mas seus olhos estavam correndo de um lado pro outro.
Fixou num ponto e quando ninguém apareceu ou notou, ele disse: “Preciso sair daqui...”.
- Hãm? – foi minha resposta em modo padrão ativado e adorando papos alheios.
- Acho que vou correr daqui.
Que ótimo. Um autista alucinado ao meu lado.
- Vou escapar pelo ralo.
OOOOOOOOOOPA! Isso muito me interessa. Será que eu tô ouvindo vozes?
- Que isso amigão, jajá chamam você. – Surpreendi.
- Se eu entrar lá, vão me descobrir.
- Hm, você ta bem? – Porra, eu to delirando de febre. Minha blusa toda suada, to tremendo, mal consigo falar. E me aparece um foragido do manicômio.
Olhei fixamente para o ralo e esperei ele olhar pra mim. Olhei pra ele e pro ralo. Ele entendeu.
- Eu sou um rato.
Tudo que eu fiz foi apertar com força meus lábios e levantar as 2 sobrancelhas. “Problemas”.
- Certo, certo... E você não quer ser atendido?
- Eles vão me descobrir porra.
- Fica sussa – disse com certa dificuldade. – Eles vão te ajudar.
- O ralo mais perto é aquele do banheirinho.
- Você ta sozinho? – insisti.
- Me pegaram na rua e me trouxeram aqui. Mas se eu entrar lá, vão ver que sou um rato.
- Puxa vida. Então corre pra fora amigão!
- Daí eles me pegam de novo. A saída é pelo ralo.
Ok. Me chamem logo, tá doendo as costas toda. Tô ouvindo vozes. Quero ir para casa logo.

O sujeito estava mal vestido. Moletom, chinelos com os dedos encavalados, escuros e sujos para fora da sandália.
Chamaram mais duas pessoas, mas nenhuma era eu ou o “rato”.
A barba dele estava por fazer.
Não quis ficar reparando, mas acho que ele tinha umas tatuagens no braço.
Engraçado, mas nos poucos minutos em que ficamos em silencio pensei na história do sapo que virava príncipe.
Esse aqui coitado, devia ser o mendigo.
A mulher abóbora, musa da laje da Rocinha, deve ter beijado o rato e deu isso.

Não ouvi com clareza, mas foi algo que terminava com “enquim”.
- Puta merda, me chamaram.
Acho que esse porra vai é quebrar tudo lá dentro.
Será que ele vai roubar o médico?
Meu, que loucura. Nada aqui tem sentido.

Eis que o senhor ratolândia se levantou e muito sem-graça foi se arrastando pra além da porta alá saloon bangue-bangue, sob dezenas de olhares. Entre eles, de alguns doutores.
“Que seja feliz” pensei.

Passando agora Herculóides, os riscos e chuviscos já até faziam parte do desenho.
Olhei e nada de revistas para ler.
Opções escassas.
Minha febre parecia ter melhorado muito. O problema era os calafrios momentâneos e o suor impregnado.
Uns oito minutos depois... eis que o nome mais aguardado é pronunciado!
Eu já nem lembrava da dor que era caminhar com esse mal estar todo.

Como o maluquete não deu o ar da graça voltando pela porta, ou ele foi internado com uma camisa de força ou ta lá dentro e toca eu ter que papear com a demência em pessoa de novo.

Após um exame superficial, constatou-se que estava com amidalite. Uma inflamação crônica na garganta, nessa altura já lotada de pus.
Eu meio que me preocupei na cacetada de grana que ia ter eu gastar com remédios, mas o doutor me alegrou, se é que essa palavra tem esse significado...
- O senhor leva essa guia até aquele primeiro balcão a sua esquerda. Será medicado com um soro, dramin, antak, dipirona e plazil.

Puta merda, vou ser massacrado com agulhadas. Mas não tinha jeito. Melhor isso e sair inteiro que o coitado do mickey mouse que deve ter saído amarrado.

- Aguarde o senhor sair do banheiro ali na frente, abaixe a bermuda para tomar uma injeção na lombar.

Que ótimo. Terei que mostrar a bunda pro plantonista.
Justo eu que coloco bermudão na praia.
Eu mereço.

Dois minutos. Nada.
Três, bati na porta.. Nada.. quatro, cinco. Forcei o trinco e estava trancada por dentro.
O coitado devia estar com diarréia.
Já vi tudo. Eu tomar injeção na bunda, num ambiente um por um metro, cheirando milho estragado (com bastante amônia) enquanto me preparo para o coquetel salvador na veia.

- Viu, a porta não abre e acho que não tem ninguém.
O rapaz do avental chegou e forçou com mais determinação.
Ficou constrangido por não ter aberto, e deu uma segunda ombrada.
“Maravilha será ele deslocar o ombro e ter que tomar injeção também”, pensei.

Um segundo avental branco se aproximou e sei lá Deus o que fez q a porta abriu.
Ficou segurando o trinco com a madeira entreaberta, a luz acesa e por incrível que pareça, cheirando álcool.
Pelo olhar, vi que era para eu entrar.
Vi não, percebi.
Pois no exato momento em que meu olhar baixo buscava minha bermuda, o que eu vi mesmo foi que o ralo estava solto.

9 de abril de 2009

Chris Fail

Há muito estava querendo deixar um Sikha.
Para aqueles que não entendem muito, o Sikha é um "tufo de cabelo", uma mecha diferenciada do volume do couro cabeludo que contém muitos significados.
Mesmo que muitos adotem o sikha somente após iniciações e cerimônias religiosas, adotei pela minha crença particular. Por motivos pessoais, esforço, aceitações, agradecimento e provação entre outros. Independente do segmento cultural religioso.
Não sou budista, hare krishna, mas acredito em muitos princípios, especificamente do sikha, daí a importância espiritual e pessoal em adotá-la por um período de tempo curto.
Para entender um pouco do que é e o que significa, os interessados podem entrar nos links ao lado para conhecer um pouquinho - http://rasadasa.blogspot.com/2007/04/o-que-sikha.html / http://safra76.blogspot.com/2008/06/yajna-ofcio-sagrado.html.
Mas, de maneira geral, faz-se uso do Sikha os Brâmanes, os hindus ortodoxos, monges hare krishnas, vaishnavas ou outros, principalmente da cultura indiana.
O Sikha tem muitos significados e é adotada em tamanhos diferentes, com rituais específicos para lavar e expor.
Segundo a cultura védica, o sikha é adotado após uma cerimônia e uma iniciação determinada. O Sikha serve para a realização de qualquer tipo de yajna.
O Yajna ao pé da letra, é uma espécie de sacrifício - sacro ofício - ofício sagrado, no conexto, Contato com o Conhecimento Superior. Não se tratando de algo pejorativo, muitos acreditam que não deve ser lembrado como punição ou superação.

Bom, pulado essa etapa, quando fui cortar o cabelo da últmia vez, há quase um mês, deixei um tufo. Meu sikha! Mesmo já sabendo a dificuldade que seria explicar a família e aos colegas de trabalho, deixei devido minhas crenças, desejos e vontades pessoais.
Cumprido minha experiência, hoje resolvi cortá-lo. E advinhem?
Óbvio que sozinho cortei na tesoura pela raiz o cabelo e esburaquei todo o cabelo.
Mas tudo bem.
Como já é meu costume cortar o cabelo sozinho, tive que repicar, de inúmeras maneiras disfarçar o buraco que deixei ao cortar a mecha.
Encurtei bem o cabelo dos lados, e agora acredito que está melhor.
Se valeu a pena?
Claro que sim.
Sempre vale.
Eu e minhas crenças.

Nos tempos da nostalgia

Na infância, como passatempo aos finais de semana, jogava futebol de campo nos campeonatos internos do clube que era sócio.
Engraçado pensar hoje sobre essas partidas de quase 25 anos atrás.
Como minha memória ainda me crava espinhos numa versão 3D, lembro claramente do meu primeiro campeonato. Devia ser 1984, jogava pelo Palmeiras (os fraldinhas eram chamados de série 1, com times paulistas), e pela falta de opções, na ingrata posição de goleiro.
Até bola fora da área eu peguei com a mão. Mas o episódio que mais permanece intocável em minha mente foi a semi-final.
Palmeiras e Santos. O Santos vinha com os craques, os garotinhos mais avantajados e truculentos, ao mesmo tempo habilidosos.
Meus pais me levavam todo final de semana aos jogos, e assim minha torcida particular era formada por meus pais e minha irmã, todo fim de semana.
Acontece que nesse jogo, a Caravan Diplomata de meu pai deu um problema na metade do caminho, e para não perder o jogo e desfalcar a equipe, fui de taxi com minha mãe e minha irmã.
Estava tremendo. Chorava perguntando sucessivamente se meu pai já estava lá.
Entrei no campo e olhava sem parar a arquibancada e não o via. Isso me deixou tão agonizado e inseguro que comecei a tomar gols um atras do outro.
Na época, o Santos era o favorito, mas estávamos no páreo. Mas aquele dia eu não olhava mais pro campo.
Fiquei o jogo inteiro olhando para a lateral do campo, e somente na metade do segundo tempo meu pai chegou.
Já era tarde e nada pudemos fazer. Não conseguimos reagir, o Palmeiras perdeu aquele jogo por 8 a 1.
O Santos foi para a final esperando o vencedor de São Bento e Portuguesa.
Após uma tímida passagem pelo Atlético Mineiro na série 2, passei logo a série 3, agora dente-de-leite e com times cariocas.
Não me lembro se jogava pelo Bangú ou Madureira, mas outro fato lembro bem.
Devia ser minha melhor fase, jogava mais no meio de campo. Mais defendia que atacava.
Salvei vários gols na linha embaixo da trave. Acho que em razão do gol ser muito grande, dividia com o goleiro a responsabilidade e o tamanho das traves. Se passava por ele, eu era o último homem e após chutes certeiros e indefensáveis pelo goleiro, salvava na última hora. Uma vez até de voleio. Belas lembranças.
Marquei alguns gols, um inclusive nas poucas vezes que desci determinado ao ataque.
Foi um jogo truncado, lembro que passei pelo goleiro e há 10 metros do gol dei um totó bem vagaroso. A bola ia entrando quando o colega/capitão de nome Adriano deu um chutão praticamente em cima da linha.
Fato: Vieram me perguntar para colocar na súmula do jogo de quem era o gol. O Adriano estava na artilharia e eu, bem timidamente disse que não me importava. Que tudo bem colocarem o gol para ele.
E ele atrás ia afirmando que realmente foi dele, que a bola não estava ainda dentro dos arcos.
E nesse dia acho eu que aprendi a crescer espiritualmente ou, como chamo, ganhar pontinhos no céu.
Por algum tempo me incomodou a atitude dele.
Meu nome não ficou no quadro de artilheiros e ninguém lembrou de mim.
Tudo isso até o jogo contra o Botafogo, time em que jogava meu primo de criação. Era fase inicial. Um jogo sem muitas emoções.
Um dos poucos em que fui ao ataque.
Mas o lance em que guardo na caixola décadas depois foi uma dividia próximo ao gol adversário.
A bola veio pingando desajustadadamente alta.. e na área, todos perdidos. Uns pulavam tentando cabeçear enquanto outros tentavam alcançar com pé alto a esfera.
Coincidentemente a bola veio parar entre eu e esse meu primo.
A bola acabou indo ao seu lado e muito desequilibrado, dominou a bola entre o peito e a coxa.
Nessa hora eu podia chegar com truculência, sei que a bola ia pingar no chão e ia sobrar livre para eu chutar ao gol, que poderia mudar o rumo do jogo e do meu time.
Mas fiquei sem graça de "atropelar" esse meu primo.
E essa ausência ficou martelando anos. "O que seria se eu tivesse dado um chutão e feito o gol?"
Eu precisava de atenção.
Eu precisava de estímulos para continuar acreditando em meu "talento" e esquecer meus medos.
Mas, nesse dia eu não chutei. E meu time não ganhou.
Passados mais de quinze anos, cheguei num consenso.
E tenho a mais absoluta certeza que fiz o certo.
O jogo passou, meu time foi desclassificado em fases mais adiantadas, e nada ganhei.
Opa, ganhei sim. Pontos no céu.

São esses fatos isolados que me deixam cada vez mais feliz em ter tomado decisões difíceis.

E esses fatos mencionados acima são só exemplos.
Meros exemplos.
Meros exemplos de escolhas difíceis.
Na minha vida sempre foi assim. Sempre. Tudo.
Prioridades.
Desistir para ganhar,
Voltar um passo para avançar dois.
Mas é exatamente nessa hora que mesmo sem saber, tudo acaba fazendo sentido.
Não na hora, mas sei que meus pontinhos no céu, uma hora acabam me agraciando de alguma forma.

Ainda estou na metade do caminho.
E mesmo não tendo conquistado "o mundo", sei que estou no caminho dele.
Hoje, começo entender algumas decisões. Mesmo sem saber direito as razões, começo entender, as vezes tardiamente (como as situações citadas) os porquês da vida.

Apenas entendendo.
Acertando, errando e decidindo.
Vivendo.

Mar de intenções *

“SOMOS NAVEGANTES NUM MAR QUE NÃO CONHECEMOS;
QUE ELE SEMPRE CONSERVE EM NÓS A CORAGEM DE ACEITAR ESSE MISTÉRIO.”

As ondas agitadas, cada vez mais altas
não consigo remar, elas balançam... sacodem.. (me torturam)
Ela poderá me cobrir.. - ela IRA!
(os salva vidas fingem em não me ver)
Estou sem forças, mas EU SEI que devo lutar contra a maré (¿de azares?)
Quanto mais eu tento nadar, mais essa maré me suga
toda minhas forças, vontades e sonhos
versus
a graça, potência e autoridade do elemento líquido. (¿lágrimas?)
As ondas são muito altas... não posso me aforgar

não irei me afogar..
ANJOS DIGAM AMÉM


Pai, por quê me abandonastes?...se eu morrer, faça isso sem doer!

Minhas lágrimas salgadas só aumentam o volume do mar
Ele se fortalece, me puxa mais forte, chegando a me enfraquecer
enfraquecer.. eu.. e meu corpo (fisica e psicologicamente)
sua potência não é normal, isso não é normal!
Bato as pernas (e a cabeça) porque EU SEI... adiantará?
¿EU SEI? Bato as pernas mais fortes
PAI me ajude, não me deixe morrer lutando
-Existem mais pessoas a serem socorridas deixe e permita-me vencer
O sol não nasce, tudo está escuro, e as ondas continuam a me cobrir
as ondas estão me machucando..
me batendo como pedradas em minhas costas
(sou puxado para baixo) os espinhos prendem meus pés..
e os sonhos minha cabeça
vou sonhar, posso morrer
mas, EU SEI, vou vencer.

“NÃO EXISTEM HOMENS PERFEITOS E SIM INTENÇÕES PERFEITAS”

* - Janeiro de 1999

1 de abril de 2009

O último degrau

Vicente "Escadinha" teve uma infância diferente.
Enquanto muitos entravam no campo de futebol com o pé direito, ele usava como mandinga uma escada. Isso mesmo, uma escada.
Era um costume diferente e, até por isso o pessoal gostava dele.
Extremamente arteiro, era de certa forma quieto. Normalmente por sua causa as rodas de discussões sempre começavam.
Como se não bastasse transportar aquela escadinha prá lá e prá cá, sentava lá no alto. Trazendo sempre desafetos aos companheiros de rua.
Não jogava bola. Ficava lá em cima como um árbitro de tênis. Mas ele era feliz assim.
Quando todos iam jogar bolinhas de gude, a dele vinha que nem um míssel lá de cima.
Briga na certa. Dificil mesmo era ele não quebrar a bola de ninguém.
Vicente "Escadinha" foi crescendo e seus degraus também.
Passou a se divertir com jogos de tabuleiro.
Mas nem preciso dizer que o dado vinha que nem um granizo do céu numa velocidade descomunal pronto para quebrar todos peõeszinhos do jogo.
War e Banco Imobiliário eram as coisas mais difíceis. Aquela cacetada de exércitos ou, casas e hotéis tudo enfileiradinho para surgir do nada... Sim..
Algo de lá de cima.
E Créu. Via-se pedaço de jogo para os quatro cantos da sala. Isso se não era na grama, o que fazia todos perderem suas peças.
Ninguém mais queria jogar com ele. Todos começaram a não levar mais os jogos.
Baralho ficou difícil. Se ele chegasse a apreder poker seria ofensivo e até perigoso vir fichas do céu com tanta violência.
Na faculdade ele sentava lá no fundo. Então ficava a quatro degraus de todos. Não que isso significasse distinção nas notas.
Ele ficou quase autista.
Vivia nas nuvens.
Almoçava e jantava lá.
Sozinho com seus pensamentos.
Quando ia dormir, descia.
Triste, descia um a um. Mergulhava em sua cama e, deitado, com todas luzes apenas em sua mente, buscava focalizar o ultimo degrau no canto do quarto.
Você leitor, deve estar pensando. "Coitado, que cara triste. E os pais dele?"
Enquanto escrevo o final, pensei em até dizer que ele hoje está subindo os mais altos degraus já alcançados pelo homem. Num lugar claro, cheio de paz. Praticamente nas nuvens.
Mas acho que a felicidade está no coração de cada um.
Aonde você acha que a história de Vicentinho foi parar?
Quem pensa positivo, recebe energia positiva.
Por um momento pensarei que ele hoje é salva vidas.
Que trabalha feliz. Todos os dias acorda e por obrigação salva inúmeros banhistas descuidados.
E, ao contrário de muitos, se realiza apenas a hora de subir aqueles degraus secos marcados com o sol estatelado numa madeira riscada de tinta velha.

A hora cheia *

Caminho [aprendendo] buscando conhecimentos e
sempre pelo caminho, encontro desafios...
problemas aparentemente impossíveis e sem solução.
Desta vez encontrei a morte.
Foi a maior prova de confiança e paciência...
Enquanto o espírito fora valorizado , o valor material fora esquecido
e nunca lembrado... a razão de tantos problemas
foi a solução da questão: a respiração .
Para dizer adeus à Deus
Não basta se preparar, não adianta se lamentar...
O relógio está sempre andando e querendo ou não...
se preparando ou não;
cedo ou tarde,
atrasado ou adiantado,
a hora cheia se dará.
Você fecha os olhos, aspira o máximo de oxigênio que consegue e espera
(depender de alguém..
ficar por empréstimo) .
Você se torna o mais belo, o mais manso o mais mísero animal humano.
De olhos fechados, você sente que cada segundo se torna o resto de sua vida.
Cada nada, simplesmente é o tudo
que você se importa,
a única coisa que realmente daria valor e brigaria,
(e até morreria por ela?!) :a vida.
Pode-se tentar fugir, pode até tentar se esconder...
você sente que mesmo aos velozes galopes, com patadas largas,
respiração perturbada, que algo em seu vácuo te persegue...
é a derrota.
E que se Alguém (mais poderoso que você quiser)
essa sua sombra carregada em seu vácuo te ultrapassará
(sem uma sombra de dúvidas)
Mesmo que seja maioral, mesmo que seja mais forte, armado e carregado;
Você simplesmente um desacreditado... acredita em sua fé
acredita em você , em seu interior, em seus amores idolatrados
e no momento...
você dependerá simplesmente do momento:
o tempo.
Ele te responderá , pode ser atingido, machucado , decapitado ,
mas se o Tempo não quiser, NÃO será.
Tudo já está escrito.... (porém não assinado).

* - Janeiro de 1998