15 de agosto de 2010

Gerações

Hoje, por coincidência no mesmo dia que completo 9 meses de casado (uma gestação), aprendi com muita satisfação mais uma adorável lição que o Tempo nos traz.
Fui com minha esposa dar uma passada mega rápida no supermercado duas quadras abaixo de casa para completar a lista de ingredientes faltantes à receita do almoço dominical.
Já na fila para pagar, um aglomerado foi surgindo, acumulando cada vez mais pessoas e nada do caixa fazer a fila andar.
Como é uma filial pequena, são poucos caixas e, mesmo estando com três atendimentos simultâneos, era insuficiente para atender a demanda ali.
Foi quando um dos caixas alegando problemas na máquina, travou. Toda aquela fila precisou de dissipar para as outras duas já formadas. A "senhora" que estava passando suas compras, acompanhada pela fila, teve que além de recolher todos produtos já passados, pegar nova fila. E como se não bastasse, em última.
Olhei e analisei rapidamente situação pois já era minha vez no caixa ao lado. Foi quando começou a passar um filme na minha cabeça.
Aquela pessoa eu melembrei. Chama-se "tia" Regina. Ela foi minha professora no pré primário, quando eu tinha seis anos. Foi com ela que aprendi as letras do abecedário todo. (menos o "u" por que no dia que minha classe aprendeu a escrever "urso" eu estava doente).
Nessa hora, já estava com minhas compras ensacoladas indo acomodá-las no carro.
Ao colocar a chave na ignição, dei meia volta e quis ir falar com ela.
Faltando uns quatro metros para encontrá-la, ela já percebeu e sorriu.
- A Sra. não é a Tia Regina?
Sorrindo - Sou sim! Que bom que você lembrou e me reconheceu. Eu estava comentando com a senhora aqui atrás. Dei aula mais de vinte anos seguidos e pela minha idade, acho que tenho muitos "netos" perdidos por aí.
- Eu fiquei pensando ao sair e me lembrei sim! A sra. foi minha professora há uns vinte cinco, vinte seis anos atrás.
Ela sorriu.
Dei um abraço e expliquei que fiquei muito feliz em revê-la. Pela pressa não pude contar de tantas histórias que tenho guardadas aqui comigo.
Mas eu acho que ela também tem as dela, e assim, mesmo sem dizer, pensamos em um tempo que os problemas nem eram os de matemática ainda.
Imagine eu ser um neto. Não, não. A sra. sempre será a "Tia" Regina.
A mesma professora que entregou um papel que estou lendo agora. (hoje enquadrado com as bordas amareladas).
"Colégio de Aplicação PioXII. Diploma Pré-Escolar
Você é a esperança da Pátria e de um mundo melhor.
Muitos anos passarão, muitos diplomas você terá,
Mas uma coisa é certa: a escola, você não esquecerá".
Assinado: professora Regina C*. G*. M*. 03/12/84
Sim, professora, aliás, tia. A senhora sempre teve toda razão.

12 de agosto de 2010

Apólogo do bem - Parte I

Num vilarejo de uma cidadezinha do interior, viviam em perfeita harmonia os velhos moradores da Rua Treze.
Luizinho ficava o dia inteiro na banquinha onde trabalhava como chaveiro.
Ela ficava num lugar estratégico, bem próximo a rodoviária, único local onde havia movimentação.

Seu trabalho se resumia basicamente em consertar os cadeados e vendê-los para os que estavam indo ou voltando e precisavam lacrar as bagagens.

O lado ruim é que a banquinha ficava entre morros, na única direção do vento, o que todos os dias resultava em prejuízos para a estrutura de seu ponto de vendas.

Aí entra Pedrinho.
Praticamente um faz-tudo, com especialidade em marcenaria. Vive de bicos.
T
odos os dias, preocupado com o bem estar de todos, em especial do Luizinho, uma vez que segundo ele, era desprovido de sorte na Rua Treze, se sentia obrigado a diariamente já implantar no seu itinerário fixar as madeiras, as vezes pintar e em raros casos, trocar até as tábuas laterais da banquinha.
Pedrinho se perguntava como ele poderia dormir sabendo que, se a banquinha do Luizinho ceder, este não consiguirá mais sustento e, logo, constituir uma família.
O problema era que Pedrinho perdia metade do seu dia ajudando Luizinho.
Joãozinho, assim como Zezinho começaram a se fazer de vítimas apoveitando da boa vontade do rapaz.
Era todos os dias pregar quadros na casa do Joãozinho, arrumar chuveiro no Zezinho, ou qualquer outra atividade que o ocupasse.
Se ele não soubesse como, ele aprenderia.

Seu tempo comecou a ficar escasso.
Mal parava na sua casa.

Sua família começou a fazer mal juízo dele.
Imaginavam que ele estava envolvido com práticas malévolas, pois estava sempre ausente.
De tudo e todos.
Quando chegava da rua, vinha cansado, mas sempre com uns trocadinhos a mais.
Pedrinho raramente aceitava alguma ajuda monetária. Mas, de vez em nunca, ele pegava porque não conseguia se esquivar de tantas insistências. E, nessas, pegava timidamente, até por precisar para os mantimentos e remédios.
Assim, seu tempo hábil para os bicos na região do vilarejo praticamente acabou.
Ele mal dava conta agora de ajudar seus conterrâneos.
Mesmo vivendo, agora com amarguras e tristeza no coração, pensava na sua família, pensava em como era útil e querido pelos amigos. Mas sua saúde não era a mesma.

Foi ficando enfermo, perdendo o que mais sabia fazer.
Ajudar.

Além eh claro, de levantar totens, pregar estantes e pintar paredes.
A Rua Treze foi ficando cada vez mais escura, até que chegou o dia em que começou a questionar sua bondade.
Sem família, sem dinheiro, sem trabalho, agora estava sem saúde.
A única coisa que ele tinha, era o mesmo que ele sempre teve.

Vontade e amigos.
Seus músculos já lembravam braços subnutridos e frágeis e, com eles ao relento, num dia de absoluta inquietação, medo, pânico e solidão, caminhou na escuridão.
Tentou achar alguém que pudesse lhe ajudar.

Queria mesmo era reencontrar sua família.
Reencontrar sua razão.

Vagou.
Tanto a casa do Joãozinho como a casa do Zezinho estavam tão bem lacradas com duas camadas de madeira, preparadas para aguentar uma avalanche de neve, que ninguém o escutou.

Ironicamente, ele estava preso, do lado de fora.
O único caminho do pequeno vilarejo nessa altura era em direção a rodoviária.
Lá, com certeza, encontraria pessoas chegando e partindo.

O único caminhho, era o caminho do vento.
Em direção do pequeno vilarejo, que mirava como alvo a banquinha do chaveiro. O conhecido Seu Luizinho.

Seria uma boa desculpa, verificar as condições das madeiras na morada do amigo e, em troca, pedir um abrigo.
Ou um abraco.

O local era muito mal iluminado, as poucas luzes daquele setor vinham somente dos ônibus saindo.

De cinco em cinco minutos um clarão refletia sua sombra caída no chão.

Ao se deparar com a morada do amigo, bateu na porta mas nao obteve resposta.
Esperou mais alguns minutos, deu treze socos com o punho fechado, cirrado e gelado, tremendo de frio, mas, novamente, nenhuma resposta.
Olhando para o chão, ficou ali, sem saber por quanto tempo até achar que seu coração tivesse sido congelado.
Eis que uma porta abriu, e a luz daquele transporte enorme fez sua retina arder.
...
Há cerca de vinte e seis metros, nao se sabe se horrendos andarilhos ou luxuosos passageiros se entreolharam.
...
Desde o início Ele já sabia.
...
Agora ficou mais fácil achar o caminho.

Meu Infinito... *

Continuo minha peregrinação em um novo deserto, procurando um novo desafio.
Ainda ferido, com a sola dos pés em bolhas e queimadura nos braços, penso que tudo isso é pouco comparado a minha sede que mata.
Sozinho eu continuo minha trilha, sozinho eu corro no meio de terras coloridas, olhando as poucas vegetações existentes nesses lugares tão estranhos e exóticos.
O cheiro de maresia somada as constantes mudanças dos ventos, fazem em alguns segundos, se alterarem trazendo o odor de enxofre ou rosas.
Sigo.
Sem confiar em minha visão, tento me convencer que (às vezes) minha cabeça pode me iludir, assim caminho lutando contra ela.
Ela não irá me vencer.
Sinto que sou um nada andando e correndo no meio de um infinito desconhecido.
Apenas enxergo morros de areia, caminhos possíveis diversos, possibilidades infinitas.
Um horizonte infinito.
Sigo meu caminho guiado apenas pelo meu instinto.
Sozinho caminho em meu caminho.
Não importa a dor que eu sinta. Não importa as lembranças que eu tenha. Eu sei que nunca vou me curar (física e psicologicamente) sentado em uma pedra. (Uma chapa quente tentando me fritar).
Perderia apenas tempo e esperança.
Esperar talvez que alguém apareça.
Esperar alguém que talvez me entenda.
Esperar alguém que talvez me ajude.
Preciso sobreviver, correr contra o tempo em rumo ao futuro.
Se conseguir sobreviver hoje, amanhã pensarei em nova estratégias para os alimentos, descansos e sonhos de vitórias.
Se eu parar, meus mantimentos acabam. Meus desejos aumentam e meus sonhos me torturam.
Sem forças, sou forçado continuar. A buscar meu amanhã. E, se acabar meus mantimentos - e o meu ar - antes do horário, honrarei.
Esses males não vão me atrapalhar, terei forças mesmo quando não considerar ser possível. Vou sobreviver. Gostando, concordando ou não.
Preciso ainda me preparar.
Caso encontre alguma aldeia, sem saber se são confiáveis, não poderei depender.
Mesmo ganhando conforto, refeições e hospitalidade, irei me virar como sempre, com o que eu tenho. Minha mente.
Não permitirei ser vencido sem lutar.
Controlando meus medos e minha mente, controlarei meu ar e minha vida.
Posso controlar minha fome, minha saudade, meus ferimentos.
Posso estabelecer estratégias para lutas não programadas.
Posso até viver.
Por enquanto, hoje.
Caminho, vivo e enfrento.
Minha caminhada, solos e desafios desconhecidos.
Sem olhar para trás, seguindo e construindo meu caminho.
Por enquanto, hoje.

*Agosto de 1997

9 de agosto de 2010

Todos Caminhos Levam a Roma

Sempre quando algum romance entra na corda bamba e é decidido, seja sob pressão, ou por unanimidade, pelo afastamento, conselhos são disparados por todos os lados.
Engracado é que como namorei 12 anos, muitas vezes era (sou) sempre consultado. (Casa de ferreiro.. ops! brincadeira!)

Sempre afirmei categoricamente que nosso destino está escrito. Acredito que uma luz maior já determinou nossas façanhas, quedas, aprendizados e conquistas
(Nosso Deus sabe SEMPRE o que faz).
No caso, eu voto SEMPRE pelo Tempo agir. E costumo dar o exemplo: se você brigar e pedir para NUNCA mais ver fulana... Além de pedir para ela sumir, esteja você com raiva ou ódio e, nem se interessar por qual caminho ou direção ela foi, pode até dar uma de espertinho e sumir também.
Vender tudo e ir morar no Cazaquistão.. E.. se for mesmo a pessoa certa e traçada, se for mesmo a vontade divina, acredite. Ela vai também vai sumir e fugir de você, até você encontrar ela. . Em pleno Cazaquistão.
(Na realidade esse tempo foi uma ação necessária para algum tipo de aprendizado para ambos).

Essa semana aconteceu uma coisa desse tipo.
No sábado, um grande amigo se casou.

Sabem como é. Casamento, são gastos e mais gastos.
É terrivel escolher os convidados a dedo. Não queremos deixar de fora pessoas que consideramos importantes.
Fazemos questão que determinados amigos estejam presentes para compartilhar esse momento tão importante junto a família perante Deus.
A história de duas famílias estão sendo mudadas naquele minuto e você foi um escolhido para presenciar e testemunhar.

O mais interessante e bacana é estar lá e ver que muitas pessoas convidadas são as mesmas que já estiveram ao seu redor, no caso, trabalharam e conviveram num mesmo ambiente profissional.

Muitos que saíram dessa mesma empresa, seja com amarguras e frustrações estavam lá.
Outros, por escolha própria, decidiram sair, se mudar. Alguns partiram para muito longe. Distante mesmo com o intuito de ousar evoluir.

E, nesse momento, estavam muitos ali.
Os mais diversos colegas e amigos que têm algo em comum.

A amizade.

Dezenas de pessoas soltas no mundo que, dentre bilhões de lugares, num determinado e curto momento da vida se cruzaram e, agora, mesmo depois de dias para uns e anos para outros, em razão desse interesse comum, deixaram seus afazeres, e se reuniram.
Em um horário e local dentre outras tantas zilhões de combinações.
(Em comum).

Nada comum.


Novamente.


Parabéns Du, felicidades e juizo sempre!