19 de outubro de 2011

O Dom de ser Médico

Ontem na Câmara Municipal em Campinas, participei de uma homenagem a alguns médicos, reconhecendo-os conforme seus serviços prestados, em especial, ao povo campineiro.
Meu tio foi um dos diplomados. Em seu belo discurso, resumiu seus agradecimentos, dificuldades e satisfação em presenciar nesses 35 anos de medicina tantos sorrisos de pacientes que, ainda em macas ou leitos, significava a vitória da saúde e cura sob a doença.
Ouvindo atentamente a cada discurso, é interessante ouvir os relatos desses doutores da vida.
Agradecimento ao encorajamento dos pais, à família que soube entender tantas horas ausentes, amigos pelos compromissos desmarcados, filhos pelas noites que precisaram sair durante algum programa.
Profissionais que já levaram enfermos à suas casas por não haver leitos disponíveis e outro que doou o próprio sangue por haver compatibilidade e extrema necessidade antes de uma emergente cirurgia que ele mesmo liderou.
Discursos sobre a medicina antiga. Filósofos, Arte da cura, Hipócrates, descobertas e evoluções.
Cabe a reflexão da vida desse profissional que abre a mão de sua vida pessoal para abraçar momentos que sempre nos traz angústia e aflições.
Discursos. Vejam só. Sou formado em Jornalismo e Relações Públicas. Graças aos meus colegas, amigos e familiares, presenciei ainda discursos dos cursos de Engenharia, Direito, Arquitetura, Psicologia, Fisioterapia, Economia e, entre outros, Medicina.
De tantos que trago guardado na caixola, me emociona lembrar especificamente de algumas frases que escutei de um patrono ao encorajar a turma de um colega que estava se formando em Medicina pela Unicamp.
Em suma, segundo ele, a honraria era tão grande, que a vida daqueles jovens a partir daquele momento, mudaria. E muito.
A escolha traria consequências irreversíveis. Agora, terão que optar entre esse ou aquele lugar, entre um ou outro diagnóstico, entre um ou outro doente e muitas vezes estar a um fio da vida e da morte. De amigos ou desconhecidos.
Abrir mão muitas vezes da vida social e da família.
Implicará num trabalho que mesmo sem estar em seu consultório, hospital ou unidade, estarão 24 horas de prontidão e entregue ao trabalho.
Estão alcançando o mais próximo que algum ser pode se assemelhar a Deus.
O "poder" de lidar com o bem mais precioso que existe. A vida.
Ficar entre a vida e a morte e decidir seu futuro.
Ganhar um anel que significa o compromisso eterno de curar vidas.
Nesse momento ele chamou um a um. Ergueu o anel e em alto e bom som disse:
"Nesse momento lhes dou o dom de ser Médico".

7 de outubro de 2011

Segredos

Saudosista como sou, passo muito tempo pensando nas mais diversas situações que me marcaram. Memória de incontáveis situações que me trazem orgulho e vergonha. Mas sabem o que eu notei? Quase todas as vezes compartilhamos com nossos queridos sempre a saudade. Aquela sensação de amor que não sabemos explicar com a família, pais, avós ou até um animalzinho de estimação.
Reflita, quantas vezes dividimos com alguém as situações embaraçosas. Fatos que não nos orgulhamos e que há muito ocorreu e, talvez pelo tempo (ou por vontade inconciente mesmo!), fomos esquecendo deixando-os guardados a 72 chaves longe de tudo e todos?
Sem sono, com muito esforço, fiquei lembrando de várias coisas que me marcaram, principalmente na infância e adolecência que talvez N-U-N-C-A tenha contato a alguém. Seja meus pais ou minha esposa. Então, nunca diga nunca! CARPE DIEM!

Tooooop 10 Segredos vergonhosos e obscuros!

01) Na escola, após ouvir baixinho um colega da classe (fila de carteiras a direita mas a frente) caçoar e me envergonhar, planejei uma vingaça. Confesso. No intervalo peguei sua borracha que estava em cima da mesa. Reparti em vários micro pedaços e (na maior "inocência") fui jogá-los DUAS QUADRAS da escola para ninguém suspeitar que fui eu.

02) Aos 5 ou 6 anos, quando um carrinho de ferro branco (preferido!! - o de número 6 com bancos vermelhos) quebrou, meu mundo caiu. Ele era o líder de todos os outros, (praticamente um safety car supremo) ataquei ele na porta do meu quarto. Obviamente ele não arrumou, mas se partiu em vários pedaços. Nessa hora, num súbito momento de Ira e Raiva, julguei que eu não "merecia" tamanha desgraça. Além de estar sem meu carrinho, por impulso, fiz o que era alguns pedaços até ajustáveis e arrumáveis, despedaçar de vez. Não sei ao certo se quis morrer ou desmaiar. Tapei meu nariz e minha boca com minhas mãozinhas. Segundos depois quando fui ficando sem ar, "Algo" fez minha mãos se soltarem e respirar novamente. O simples desejo natural em viver e sobreviver. Naquela hora sabia que não podia morrer e mais. Me senti um iluminado porque aquilo tinha sido ma mensagem divina que Deus estava ao meu lado e nunca iria me deixar acontecer algo. Por muito tempo, acreditei que a partir desse momento, Deus (ou seria um anjo), ficava sempre ao meu lado caminhando comigo. Eu podia perguntar qualquer coisa que eu sentia a resposta se formando em minha mente! (e ainda sinto!).rs

03) Quando chegava o final do ano, férias e recesso escolar, costumávamos sempre ir para praia (Caraguatatuba). Para aproveitar uma dessas idas, ganhei (não sei se foi de natal) uma brinquedo inflável. Nao era uma bóia propriamente dita, mas uma naviozinho de plástico, mais parecido com um submarino inflável. Acontece que eu achava tão bonito a sala de comandos que vinha impressa na frente que sem ninguem ver, eu furei com o dente o "vidro" da frente. Tinha certeza que mesmo novo, nessa época uns 5 anos, poderia dirigir dentro do mar. Lógico que em 2 minutos murchou e para decepção total meu pai foi tentar trocá-lo na loja. No dia seguinte ele conseguiu! Trouxe outro submarino azul, com a já conhecida sala de controle vermelha!! E claro, mais uma vez quis pilotar! Com ajuda de uma tesoura, abri o para brisa impresso na frente do plástico. Todo muado, levei para meus pais verem. Levei um esfrega gigante. Acho que eles não tinham sacado que na primeira vez, fui eu que tinha começado o furo com o dente. Resumo da ópoera meu pai foi trocar de novo. E não conseguiu. Não tinha mais. Em compensação me trouxe no lugar, uma bola de plástico com o logo dos Trapalhões. (Que mais tarde eu penaria no terreno baldio do vizinho).

04) Sempre fazia minhas lições de casa no escritório do meu pai lá em casa. Um cômodo bonito, com mesa, aquelas poltronas grandes e muito livros. Aliás sempre achei que um dia eu iria ter um cômodo desses. Enfim, ele estava abrindo suas correspondências, muitos press-releases, revistas brindes, pastas informativas, envelopões.. e tinha chegado num desses "brindes" uma espécie de calendário em folha única com uma mulher pelada. Lembro que ela estava agachada como nesses atuais pole-dance (acho que é assim que escreve) em Preto e Branco. Devia ter uns dez, doze anos e junto com revistas de esportes (como Placar), ele me deu com o poster no meio. Não sei se proposital. Nunca soube se ele queria ter esse lado "bróther" pai/filho.. o que aconteceu foi que eu percebi que o poster tava no meio e esperto como só eu, terminei a lição, fechei os cadernos, peguei a pilha de papéis (revistas e poster!!! \o/) e estava indo pro quarto. No caminho vi minha mãe e voilá! "Mãe olha sóóóóóóóó o que meu pai me deu!!!!!!". Sim senhores. O final vocês já imaginam. Papel picado igual carnaval e esporros igual rojão de São João.

05) Os memoráveis carnavais de salão sempre foram minha verdadeira paixão e antes de alcançar a maioridade, frequentava somente as matinês. Toda ansiedade no primeiro ano que comecei a pular "a noite". Coração batendo a 172b/m (conferido!) cheguei no salão e vi um mundo diferente de foliões. A turma da escola bebia muita cerveja. Mas eu além de não gostar muito de cerveja (até hoje), sempre me deixava muado, desanimado e principalmente, COM SONO. Foi então que descobri o suco de frutas Gummy. Tomar destilados!!!! E para resumir somente uma estripulia de carnavais, nesse tópico colocarei uma das situações que hoje me daria muita vergonha. Como o destilado era tiro e queda, famoso tomou-subiu, eu tinha que ficar imitando que estava bêbado até a metade do baile para dai sim ficar alcoolizado! Era digno de Emmy na atuação dramática caminhar cambaleando na frente dos amigos, imitando um ser deplorável e tonto.

06) Lembrando aqui, eu era muito otário mesmo! Na natação (fiz 10 anos!!) teve uma vez que separando as turmas, fiquei para treinar só com nadadores que nunca tinha visto. Um saco até porque eu fazia meio que obrigado e não gostava de ficar fora de casa e sem minha Tv. E No dia que apresentaram a nova turma de coleguinhas nadadores, todos tinham nomes bacanas e diferentes.. não vou lembrar quais.. mas deviam ser algo como Dimitri, Caleb, Jonas e eu fiquei com vergonha de falar que meu nome era Christiano (e o H me deixava mais triste porque ninguem sabia escrever ele certo!). Acho que uma explosão de revoltas me levou à humilhante decisão. Me apresentar como "Xandão". (tsc tsc ok Lamentável!). Só para dar fim a história, ninguem deu atenção e na segunda aula, os professores Júlio e Júnior já me chamaram de Chris e o apelido não pegou mesmo. (Ufa!).

07) Sempre fui muito inseguro e medroso com provas da escola. Apelidos como: Lá vem o "tenso", "garoto stress" era básico. Eis que no primeiro ano que peguei recuperação, fiquei dois dias sem dormir e sem comer. Umas 10 horas de aula particular por dia com meu tio Adilson e no dia da prova eu era só cagaço. Tremia igual vara verde. Me dava uma tremedera que queria que minha mãe me levasse para a prova (acho que a segurança que ela iria me passar me tranquilizaria mais). Acontece que nesse dia minha mãe (que estava de férias) iria fazer um trabalho voluntário com minha avó (levando alimentos, calçados...) numa casa de crianças carentes e até por isso só poderia me levar na escola com umas 5 horas de antecedência (5 horas de sofrimento em espera) . Sei que tudo que eu precisava era apoio e me arrependo de hoje repetir diversas vezes "é!! seu filho com medo, precisando de companhia e você vai atrás de criancinhas carentes que nunca te viu".. Ela estava muito confiante e ao mesmo tempo que passava tranquilidade dizia que ela não podia desmarcar que já tinha se comprometido. No final, minha irmã desmarcou o que tinha que fazer e ficou até a hora da prova me passando tranquilidade.
07.1) Refletindo sobre esse item, lembrei que até hoje sou muito ansioso. Quando fui comprar meu atual carro, fiquei acho que duas noites direto sem dormir, assim como quando eu comprei o atual notebook.

08) Numa noite, lembro que minha mãe tinha acabado de chegar em casa após ter deixado minha irmã no balé e chegou toda receosa.. Ela queria conversar nitidamente e eu perguntei se tava tudo bem. Ela perguntou "você promete que não conta pro seu pai?". Putz, como odeio isso. "Fui multada no trânsito". Acontece que aquilo começou a me deixar angustiado. Me deixava realmente muito incomodado em esconder as coisas. Sabia que era questão de tempo passar de omitir para mentir. Aí não teve jeito, numa dessa lições de casa no escritório, no meio de vários assuntos acabei contando pra ele. Lembro do olhar dele. Respeito, consideração, segurança. Pedi para ele não falar que sabia. Anos depois desconfiei que poderia ser um "teste" já combinado entre eles. Mas nuca fiquei sabendo se isso teve algum desdobramento.

09) O curso de balé que minha irmã fez (mais de 12 anos) ficava numa academia próxima ao supermercado Pão de Açucar. Lá pelos meus 6 anos (ô idade peralta), pratiquei meu primeiro crime! Numa dessas compras corriqueiras, escondi um chocolate surpresa (aqueles que vinha com cartão de bicho para colecionar atrás) na calça. Logo que passamos pelo caixa e minha mãe pagou as compras, foi só chegar no carro que todo esbelto e vitorioso saquei o chocolate. Bem na frente, hoje diria gordice, mas na maior estupidez possível: "Olha sóóóóóóó o que eu tenho para comer agora!". Sim. Levei um mega blaster esporro, além de ter que voltar até o caixa e obrigado, devolver ao funcionário e pedir desculpas.

10) Lembrei de uma também total deprimente! No pré, com o intuito de conversar com a menininha mais bonitinha da classe arrumei uma tática infalível para ganhar sua atenção. Esperei o recreio e, quando ela ficou sozinha, juntei bastante saliva e cuspi na palma da mão. Coloquei toda enxurrada no canto dos olhos para fazer que eram lágrimas e, numa outra atuação digna de Oscar, lancei: "Ninguém quer conversar comigo. Será que ninguém gosta de mim?". Digno de pena, ela disse: "Lógico que não, eu sou sua amiga". Ahmmmm!

Acho que por isso não ou 100% bonzinho.
Sou Quase 1 Anjo.

29 de setembro de 2011

Legião

Hoje comeca a segunda semana do Rock(?) in Rio4. Lendo uma matéria sobre a primeira banda a se apresentar, percebo que será uma espécie de homenagem ao cantor Renato Russo com seus músicos, cantores diversos e participação inclusive, da Orquestra Sinfônica. Refletindo sobre suas letras, vejo que décadas depois, muitas letras ainda fazem (e muito) sentido. Cada um interpreta a sua maneira, mas o interessante é que nunca gostei ou fui fanático. Comecei gostar tardiamente da Legião e somente das letras/músicas chamadas "Lado B". Não consigo ouvir algumas faixas repetidas tão exaustivamente pelo sucesso e muitas vezes sem contexto ou cantada por muitos que nem sabem o que dizem (caso de 'Pais e Filhos', 'Ha Tempos', 'Tempo Perdido'...).

Nessa reflexão, comecei a listar algumas frases que fizeram enorme diferença na minha evolução, musical e pessoal.
Listarei aqui 15 delas.

Ps- Metal x Nuvens; Giz; Perfeição entre muitas são disparadas as favoritas, e claro, "Os Barcos" a melhor letra.

15. Quem acredita, sempre alcança.
(mais uma vez)

14. Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando. E foi então que descobri. Como te quero tanto.
(qse sem querer)

13. Será que você vai saber o quanto penso em você com meu coração.
(descobrimento do Brasil)

12. Triste coisa é querer bem a quem não sabe perdoar.
(L'aventura)

11. se voce quiser alguem para ser só seu é só nao se esquecer, estarei aqui. Ou então não terás jamais a chave do meu coração...
(era um lobisomem juvenil)

10. estamos medindo forças desiguais. Qualquer um pode ver. Que só terminou pra você.
(os barcos)

09. Feche a porta do seu quarto porque se toca o telefone, pode ser alguém. Com quem você quer falar por horas e horas e horas...
(eu sei)

08. É a verdade o que assombra. O descaso que condena, A estupidez, o que destrói.
(metal x nuvens)

07. E queria sempre achar explicação pro que eu sentia, como um anjo caído. Fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo.
(qse sem querer)

06. Sou um rapaz direito, fui escolhido pela menina mais bonita.
(descobrimento do Brasil)

05. me sinto tao só. E dizem que a solidao até que me cai bem.
(mauricio)

04. Te ver é uma necessidade. Vamos fazer um filme.
(vamos fazer um filme)

03. tem os sentidos ja dormentes. Se o corpo quer a alma entende.
(metal x nuves)

02. Nao ter a quem ouvir, nao se ter a quem amar.
(perfeicao)

01. Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu.
(se fiquei esperando...)

5 de janeiro de 2011

2010, um rascunho.

Todos já devem saber o quanto eu não gosto destas datas de fim de ano.
Época nostálgica para lembrarmos das coisas boas que ficaram para trás, e as pessoas que não estão mais entre nós.
Sempre assim.
Ja fiz um post sobre as festividades LER AQUI .
Nesse post tentarei fazer um rápido resumão, afinal, ninguém lê, ainda mais se eu escrever uma bíblia totalmente pessoal que não traz interesse a quem cai de paraquedas aqui.
2010 foi Superação.
Meu sobrinho enfrentou a ciência e a matemática.
Sorriu em cada UTI que passou.
Superou diversas provas de fogo, inúmeros procedimentos cirurgicos, entre tantos, a mais delicada operação, no coração.
MMX foi Iluminação.
Esse ano foi excepcional para meu lado profissional. Tudo deu tão certo, em todos sentidos, que se melhorar, capaz de estragar.
Houve um crescimento pessoal e intelectual absurdo.
Aprendi demais sobre muitos valores e amizades.
Dois mil e dez foi determinação.
Li cerca de 15 livros, acompanhei 79 episódios de séries da Tv aberta e fechada e assisti 163 filmes.
Uma média baixa comparada aos últimos anos, mas tudo (sempre) tem uma explicação.
Tudo o que eu faço hoje não é para somente o meu lazer.
Todo tempo que eu tenho ocupado ou livre, não é para somente o meu bem estar.
Hoje sou um marido, com planos e movimentos evidenciando minha família.
Aliás, após completar um ano de casado, após 12 de namoro, todos dias continuo aprendendo.
Palavras e ações.
Atitudes e intenções.
Paciência e orgulho.
@)!) foi dedicação.
Tudo muda todo dia.
Pela segunda vez, realizei junto à D o natal e ano novo em casa.
Família reunida e abraços apertados.
Fogos, sorrisos, fotos, cristais, receitas e brindes.
Respire e tome fôlego.
Dois mil e onze, inovação.

4 de janeiro de 2011

Hotel Cinco Estrelas - Parte 2

ALPHA
O melhor amigo do homem, um cão.
Alpha foi uma husky siberiano que compartilhou 7 anos de alegria e tristezas intensamente junto à familía.
-"Mãe, o Chris trouxe um cachorro!", (risos), -"Você vai cuidar!"
Quando a escolhi diante seus irmãos, ela era a mais espoleta, a mais levada.
Na época seu apelido ao nascer foi "Vaquinha" devido suas manchas negras nas costas.
Alpha foi tudo que um animal pode ser. Inteligente, levada, irritante, dócil, amiga e amorosa.
O privilégio em compartilhar tanto tempo fez suas marcas.
Todos os dias, nos mesmos horários, brincava com ela.
Ela sentava na porta da cozinha e ficava lá. Horas vendo minha mãe cozinhar.
Eu chegava de mansinho e mesmo ela me vendo pelo cantinho do olho, me ignorava (não alterava a direção do focinho). Eu ia chegando perto (me fazendo se esconder) e ela continuava olhando para frente. Até o momento em que a abraçava.
Normalmente eu via ela sorrir e ao sentir seu abraço, e retribuia com uma tímida lambidinha.
Quando a abraçava sentada, inclinava minha testa e encostava minha têmpora em sua orelha, e docilmente, ela retribuia.
Aqueles pêlos, abrigo.
Aquele silêncio, magia.
Assim por dezenas de minutos.
Acompanhava os pesados piscares de olhos, a respiração lenta e profunda.
Era único e mais, ela fazia isso apenas comigo.
Era travessa.
Sabia que todos chamariam sua atenção quando entrava dentro de sua casinha de madeira e a "cavocava".
Raspava as unhas sucessivamente por mais de um minuto.
Pela janela de meu quarto, podia ver apenas o telhado da casinha. Então quando alguém a advertia, ela parava e uns três segundos depois seu focinho aparecia pela metade em minha vista superior.
Se ninguém falasse nada, ela continuava. Era atenção.
A mesma retalhação era feita por exemplo se meu pai fosse ler o jornal no quintal. Ela ia disfarçando, disfarçando e pulava com as duas patas frontais em seu colo. Ao adverti-la ela saia correndo. Como bala.
Zigue zagues. Voltas no próprio eixo.
E claro, descia correndo mais de vinte degraus e entrava na casinha para... arranhar e chamar atenção.
Alpha teve um derrame e uma sucessão de problemas a deixou imóvel e internada por dias.
E desde então, nunca mais voltou.
Fisicamente.
Alpha, a melhor amiga do homem.

* "Alpha", além de ser a primeira letra do alfabeto grego, significa, numa alcatéia, quem é o lider do bando.

Hotel Cinco Estrelas - Parte 1

Meu tio.
Ensinou a dura dor em perder alguém na família.
Ele foi o primeiro e, mesmo criança, o vazio e a saudade significava medo, dor, dúvidas e insegurança. Algo desconhecido, um livro sem final.
Lembro de finais de tarde ao esteriótipo estilo Vinicius de Moraes. Lá pelas 19, 20 horas, ao som de jazz e clássicos dos anos 60, o via na penunbra de sua sala. Sentado numa poltrona com uma rala barba por fazer, sorria e acompanhava lentamente com as pálpebras as canções.
Se prestasse muita atenção, sentia o ritmo com leves inclinações no rosto em direção aos ombros.
Em seu colo, um copo de whisky com o típico barulho de cubos de gelo se batendo, enfrentando a borda do cristal.
O cheiro da colônia; o despertar do rádio relógio; o pigarrear nas tragadas de cigarro sob o jornal de domingo bem cedo sob a mesa, ao forte cheiro de café fresquinho.
Com as pernas cruzadas em uma cadeira de madeira com vime e joelhos balançando, escreveu num guardanapo: "O Danilo vai entrar em medicina na Puc-Campinas na segunda chamada". Datou, assinou e com durex fixou na parede ao lado da mesa de jantar.
Lembro com exatidão de suas risadas e principalmente, do tom grave de sua a voz sempre que necessária numa intervenção do pai e chefe da casa, sempre com a palavra final.
Atrás do grosso aro de seus óculos, um homem tão sério, que muitas vezes passava desapercebido o tamanho do seu sorriso e coração.
Sua barba por fazer raspava minha bochecha sempre que o cumprimentava após as missas de domingo.
Depois de o ver jogar futebol em seu pesqueiro no time dos casados, eu e meus primos entravámos empolgados e inspirados em campo. Muita correria e pouca habilidade. Ele saiu do quiosque ao lado do campo e foi até a beirada do gramado: "Se vocês não tocarem a bola, não farão gols".
Homenzarrão.
Homemzazão.

Ps: Meu primo 'Danilo' entrou na segunda chamada de medicina na Puc-Campinas.