4 de janeiro de 2011

Hotel Cinco Estrelas - Parte 1

Meu tio.
Ensinou a dura dor em perder alguém na família.
Ele foi o primeiro e, mesmo criança, o vazio e a saudade significava medo, dor, dúvidas e insegurança. Algo desconhecido, um livro sem final.
Lembro de finais de tarde ao esteriótipo estilo Vinicius de Moraes. Lá pelas 19, 20 horas, ao som de jazz e clássicos dos anos 60, o via na penunbra de sua sala. Sentado numa poltrona com uma rala barba por fazer, sorria e acompanhava lentamente com as pálpebras as canções.
Se prestasse muita atenção, sentia o ritmo com leves inclinações no rosto em direção aos ombros.
Em seu colo, um copo de whisky com o típico barulho de cubos de gelo se batendo, enfrentando a borda do cristal.
O cheiro da colônia; o despertar do rádio relógio; o pigarrear nas tragadas de cigarro sob o jornal de domingo bem cedo sob a mesa, ao forte cheiro de café fresquinho.
Com as pernas cruzadas em uma cadeira de madeira com vime e joelhos balançando, escreveu num guardanapo: "O Danilo vai entrar em medicina na Puc-Campinas na segunda chamada". Datou, assinou e com durex fixou na parede ao lado da mesa de jantar.
Lembro com exatidão de suas risadas e principalmente, do tom grave de sua a voz sempre que necessária numa intervenção do pai e chefe da casa, sempre com a palavra final.
Atrás do grosso aro de seus óculos, um homem tão sério, que muitas vezes passava desapercebido o tamanho do seu sorriso e coração.
Sua barba por fazer raspava minha bochecha sempre que o cumprimentava após as missas de domingo.
Depois de o ver jogar futebol em seu pesqueiro no time dos casados, eu e meus primos entravámos empolgados e inspirados em campo. Muita correria e pouca habilidade. Ele saiu do quiosque ao lado do campo e foi até a beirada do gramado: "Se vocês não tocarem a bola, não farão gols".
Homenzarrão.
Homemzazão.

Ps: Meu primo 'Danilo' entrou na segunda chamada de medicina na Puc-Campinas.

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